Carta de Amor a Salvador
"Nesta cidade todo mundo é
d`oxum, homem, menino, menina, mulher".
Gerônimo e Vevé Calazans
Nasci em Salvador numa madrugada
de outubro de 59, no bairro do Carmo. Conta minha
mãe que meu pai, um imigrante espanhol que
chegou à cidade na década de trinta,
resolveu sair na mesma hora, para avisar a uns tios
que moravam pelas bandas do Bomfim (alguém
se preocupava com assalto nesta época?).
Depois morei na Barra, onde passei minha juventude,
hoje moro na Pituba e cada dia me encanta mais esta
fantástica cidade.
Ao percorrê-la percebemos
várias cidades em uma só e a sua vocação
para a diversidade. Têm a bela e supervalorizada
orla marítima, a parte histórica do
Pelourinho, a cidade baixa que ainda conserva traços
de cidade do interior, os bairros dos bacanas (Horto,
Graça, Itaigara) e nossas senzalas atuais
(Nordeste, Liberdade, Cajazeiras).
As praias são um capitulo
a parte, são vinte e três quilômetros,
voltadas para a Baia de todos os Santos e Orixás,
que vão desde as praias do subúrbio,
onde se pode tomar vinho capelinha e curtir um pagode
aos domingos até a praia de aleluia, com
suas luxuosas barracas.
Um programa imperdível, de
manhã tomar banho de mar no Porto da Barra
(uma verdadeira piscina natural), passar a tarde
em Itapoan (cantada em prosa e verso pelo poeta)
e jantar uma moqueca de peixe na Ribeira, com direito
ao famoso sorvete do bairro como sobremesa.
Também vale destacar seu
fantástico povo, formado pela boa gente da
terra e dos milhares de imigrantes que convivem
harmonicamente. Não é a toa que temos
a fama de bem receber. Talvez por isso Salvador
seja palco da maior festa popular do planeta, o
carnaval.
A culinária é plural,
ao mesmo tempo em que acolhe restaurantes com comidas
típicas do mundo todo. As suas moquecas são
irresistíveis e o acarajé chega a
ser uma entidade de utilidade pública. Retirem
as baianas e seus tabuleiros das suas esquinas e
teremos uma verdadeira revolução popular.
As suas mulheres são belíssimas,
de uma cor que só essa miscigenação
aliada à exposição permanente
ao sol pode produzir. Isto desde o tempo que Ary
Barroso encontrou a morena mais frajola da Bahia,
na baixa dos Sapateiros.
Salvador é a capital da Bahia
e se confunde com ela. Muitas pessoas saem de outros
estados e até do interior para vim para cá
e dizem que estão indo para a Bahia. No quesito
de opção religiosa, dá um banho
de civilidade e tolerância. Querem prova mais
linda de respeito a diversidade do que as Yalorixás
que ficam na porta da igreja de São Lazaro
(uma das suas 365 igrejas) dando banho de pipoca
nos fiéis.
E se alguém estiver ai pensando
porque não falo de suas mazelas que não
são poucas, desemprego em números
alarmantes e um quadro desolador de desigualdade
social, com 70 % de excluidos, digo que isso é
coisa de pessoa apaixonada, passional confesso,
pois se pudesse escolher como gostaria de nascer
outra vez, negociaria todas as condições,
mas de uma eu não abriria mão! Queria
nascer em Salvador novamente.
Victoriano Garrido Filho
Soteropolitano com muita honra!
7199640626