"VIVA O PROGRESSO"
Anos
60. Estava para acontecer algo que marcaria para
sempre a minha vida. Uma "estrela" pousaria
lá na garagem e se transformaria em uma irresistível
atração. Um moderno AERO WILLYS que
aos domingos (dia em que era usado) nos levava à
Rua Chile, nosso Aero Clube da época, para
tomar sorvete na Cubana e coco espumante na Sloper.
No
inicio dos anos 70, após a polêmica
questão sobre o homem ter ido mesmo à
lua ou se tudo não passava de marketing dos
Americanos, assisti deslumbrado ao surgimento da
TV a cores. Ao final da aula, no Colégio
Antônio Vieira, onde estudávamos sob
as bênçãos de Padre Hugo, íamos
à casa de um colega ricaço para assistir
a programação. O menino ficou boçal
e nos fazia pagar-lhe o lanche pelo "ingresso".
Na
década de 80, nas minhas primeiras experiências
de trabalho, um dos meus melhores colegas na Metanor
- fábrica no Pólo de Camaçari
onde trabalhei - era um rapaz que detinha o prestigioso
cargo de Operador de Telex. De sua sala ele controlava
as comunicações da Empresa com o mundo
e era o mais informado. Um figurão!!!
Em
1993, já na Telebahia, acompanhei o lançamento
do telefone celular que nós funcionários
usávamos como teste. Lembro-me das vezes
em que fui parado em locais públicos pois
quando ele tocava, as pessoas ficavam curiosas e
tinha que fazer demonstrações. Eram
aparelhos enormes que, na época, ninguém
queria esconder objeto de tamanho status.
Do
Aero Willys ao Celular, passando pelo computador,
venho convivendo de perto com a eterna relação
de amor e ódio entre o homem e a tecnologia.
Nunca
o homem sonhou tanto com coisas simples como uma
casinha branca, uma caminhada na praia, comida caseira
e nunca nos endividamos tanto para ter engenhocas
eletrônicas, carros possantes e freqüentarmos
restaurantes caros.
Nunca
tivemos tantas opções de comunicação
- celular, fax, correio eletrônico etc e nunca
o homem se sentiu tão só.
"Navegamos"
o mundo todo sentados dentro de casa e não
temos tempo para ver o mar.
Enfim,
utilizamos o progresso tecnológico para melhorar
a nossa vida e render mais o nosso tempo, mas na
verdade o que estamos fazendo é robotizar
nossas almas, virtualizar nossos sentimentos e acabamos
por não dispor de tempo algum para as delícias
do ócio.
Então
fica uma proposta, já que temos de endurecer
sem perdermos a ternura, que tal sermos modernos
sem perdermos a humanidade?
Outro
dia, um filósofo chamado Saja, "sacudiu"
o auditório com sua instigante palestra:
"Me dê o supérfluo que eu abro
mão do essencial" e deixou todos meio
sem graça quando perguntou incisivamente:
"Há quanto tempo vocês não
param para assistir a um pôr-do-sol?"
Ora
bolas, parece maluco esse tal de Saja. Afinal, quem
vai perder tempo com pôr-do-sol hoje em dia,
quando podemos instalá-lo na tela do computador?
Victoriano Garrido Filho
Diretor de Educação Corporativa da
ABRH-Ba
Diretor da ADVB
Coordenador de Projetos do CETEAD
vgarrido@terra.com.br