POBRE E ALEGRE BAHIA
“Uma gente que ri, quando
deve chorar e que não vive, apenas agüenta”
Milton Nascimento
Comecei a pular carnaval no início
dos anos oitenta. A gente ia para a Avenida Sete
- não existia o carnaval da Barra - e então
ficávamos vendo o movimento até o
início da noite, quando voltávamos
para casa para fazer um “pit stop” e
aguardar a hora de irmos para os clubes. Bahiano
de Tênis, Associação Atlética,
Clube Espanhol, entre outros, rivalizavam quem fazia
o melhor baile e quem atraía mais gente.
Nesta época, a Praça Castro Alves
era do povo como céu é do avião,
como cantava o poeta Caetano.
Hoje levaram o clube para as ruas,
em uma espécie de baile a céu aberto.
Privatizaram o carnaval e industrializaram a folia,
que se sofisticou e, o que era uma alegre e despretensiosa
brincadeira entre carnavalescos de outrora, um belo
ócio, virou negócio, comandado por
profissionais que não brincam em serviço.
Vendem a “felicidade” com muita competência.
Vivemos no carnaval, desde então,
e agora em 2007 não será diferente,
uma espécie de apartheid camarada, onde temos
os dois lados do nosso Brasil desfilando na Avenida.
De um lado, a glamourização dos camarotes,
e um desfile de celebridades e candidatos à
celebridade, aproveitando muito bem de uma das maiores
vitrines eletrônicas do mundo, que é
a transmissão pela TV para centenas de países.
Vemos também a beleza e a magnitude dos trios,
com os geniais artistas do axé dando um show
à parte. Hollywood é aqui e agora!
Do outro lado, a nossa alegre gente,
“quanto riso, quanta alegria, mais de mil
palhaços no salão (palhaços
no sentido não pejorativo, mas aquele que
ri quando deve chorar)”. Gente que de “dona
da rua”, agora é convidada a tomar
posse da parte que lhe cabe na festa, se divertir
espremido na pipoca e faturar um troco, como cordeiro
(diária de R$ 14, 00 em 2006), catadores
de latas, vendedores de isopor, guardadores de carros
e afins. Figurantes para figurões ver do
helicóptero das TVs. O Haiti é aqui
e agora!
Engraçada é a equação
da festa. A prefeitura, já combalida em suas
finanças, fica com o prejuízo numa
espécie de Hobby Hood às avessas.
Uma idéia romântica! Que tal se cada
grande bloco adotasse a festa em um bairro popular
e lançasse também ações
em benefícios de seus cordeiros? Que bom
seria sair no bloco da responsabilidade social.
Outro dado impressionante são
os inexpressivos índices de violência
da festa. Baixíssimos se pensarmos em um
evento que mistura bebida, euforia (diferente de
alegria) e fantasia, e que conta com uma multidão
de dois milhões de pessoas. Só mesmo
a proteção do Senhor do Bomfim e de
todos os santos e orixás da Bahia para explicar
isso.
Mas o mais incrível mesmo
é o cenário onde é produzido
e acontece esta notável festa. Salvador,
capital com índices sociais tão negativos
e com uma brutal desigualdade social, omde hordas
de excluídos perambulam por ai.
Que mágica é essa?
Não sei, só acho que é isso
que faz da nossa Roma negra, um lugar plural, que
fascina tanta diferente gente. Terra onde convivem
brancos e negros (a grande maioria), o sagrado e
o profano, o catolicismo e o candomblé, o
canto erudito do Mosteiro de São Bento, o
samba de roda e o axé. Um verdadeiro monumento
à diversidade e à magia. Assim é
a nossa pobre e alegre Bahia.
Victoriano Garrido Filho
www.professorgarrido.com.br
7199640626