SEMÁFORO S.A.
Quando
me formei, há exatos 20 anos, na minha querida
escola de Administração da Ufba, havia
poucos Semáforos na Cidade, muitos oportunidades
de trabalho e duas especializações
no curso de Administração: a de Empresas
e a Pública.
Hoje
com a tendência de segmentação
de mercado, existe uma infinidade de especializações
como Administração Hospitalar, Hoteleira
e de Recursos Humanos, entre outras. Emprego é
coisa rara e os semáforos dominam a paisagem
da cidade, verticais, horizontais, temporizados,
"dedos-duros", todos com muito movimento.
Era
uma quarta feira, igual a outras, se não
fosse minha estranha idéia de reparar as
pessoas que transitam nos semáforos, nos
diversos trajetos que fiz naquele dia, pois como
Consultor trabalho "visitando" Clientes
e Semáforos.
A
idéia veio como uma obsessão, meio
para matar o tempo e meio para me distrair do tédio
do trânsito. Observar o que acontecia em volta
toda vez que passava em um sinal, que por sinal,
sempre teima em fechar quando nos aproximamos.
Ao
sair de casa deparei logo com um velhinho simpático
que fica no semáforo da esquina de minha
rua, era quase familiar e ele me cumprimentou, como
quando se vê um velho amigo ou colega de trabalho.
Nos nossos olhares, era como se trocássemos
desejos de um bom dia de trabalho, com bons negócios
para ambos. Na outra esquina um outro velhinho,
desta vez deficiente físico estava no pedaço,
era novo no lugar, provavelmente em primeiro dia
de emprego e inaugurando a competitividade no seu
segmento de atuação. Trazia uma faixa
que não consegui ler, pois o sinal abriu.
Não faz mal, fica para amanhã.
No
próximo semáforo, mais atrações,
outro representante da melhor idade, agora uma simpática
velhinha pedindo dinheiro dividia as atenções,
acreditem se puderem, com um vendedor de polvo,
uma espécie de pescador "high tech".
Fiquei com o estômago meio embrulhado, mas
tudo bem, viva a globalização.
E
lá vou eu para a próxima atração,
digo semáforo. Percebi que ficava zona nobre
e valorizada, pois era grande a concorrência.
Havia muitos "Flanelinhas", Garotos que
como diz o escritor e terapeuta Roberto Shinyashiki
são um exemplo para a turma de vendas pela
sua enorme capacidade de receber não e continuar
no propósito, teimando em sobreviver.
No
próximo sinal, outra coincidência com
o mundo corporativo: havia moças e rapazes
panfletando anúncios imobiliários
e aquele destacado para meu atendimento me deu nada
menos que três folhetos iguais, numa demonstração
de desperdício e falta de comprometimento
com o trabalho e com o patrão.
Continuando
minha via-crúcis ou - quanto negócio
na via, cruzes!!! - encontrei mais vendedores, um
que comercializava água e refrigerantes,
num tipo de bar temático e virtual, destes
bem moderninhos, um alivio refrescante e ambulante
e o pessoal de uma igreja evangélica, que
Cristo também está nas estradas.
Outro
aspecto bastante badalado em tempos de Marketing
de relacionamento, o cuidado com a apresentação
se fazia representar na presença de meninas
de short, que embelezavam o ambiente. Afinal no
mundo empresarial aparência é fundamental...
Cenas
de "comédia da vida privada": em
um sinal emparelhou com o meu carro uma Brasília
velha cujo motorista calmamente pegou uma garrafa
térmica no console e se serviu de um "menor"
para depois acender um cigarro. Tudo como se estivesse
em uma singela varanda rodeada de plantas. O brasileiro
é genial!
Enfim,
vendedores, deficientes, meninos de rua, obreiros
e biscateiros transformam a vida no semáforo
em uma espécie de feira de utilidades domesticas,
com cada um divulgando produtos e fidelizando clientes
a sua maneira.
Foi
quando cheguei em uma das empresas que fui visitar
naquele dia e que havia passado por processos de
Reengenharia e downsizing, notei que quase não
havia funcionários. Cadê o pessoal?
Aí me lembrei, o mundo acontece nos semáforos.
Victoriano
Garrido Filho
Diretor de Educação Corporativa da
ABRH-Ba / Associação Brasileira de
Recursos Humanos
Diretor da ADVB / Associação de Dirigentes
de Marketing e Vendas da Bahia
e-mail garrido@vgarrido.com.br